terça-feira, 8 de dezembro de 2015

VIDA PERDIDA.



Numa manhã ensolarada ela saiu de casa.
Caminhava lentamente com sua trouxa de roupas pendurada nas costas.
Ela não chorou.
Não chorou quando o pai a expulsou.
Não chorou quando aquela mão pesada chocou-se contra seu rosto fino e pálido.
Não chorou quando o sangue rubro e quente escorreu-lhe por entre os lábios róseos e frágeis.
Embora o sangue vertesse de seus lábios, foi o coração que se partiu em pedaços.
Ela não chorou. Era fo
rte.
Seus passos lentos e decididos a guiaram em direção aos limites da cidade. Ela não sabia para onde ir. Quando estamos sem direção, qualquer direção nos parece satisfatória. Logo ganhou a rodovia. Os carros passando em alta velocidade. Sua vida passando diante de seus olhos não menos veloz.
Seus passos já não eram tão decididos.
Como era bela, não demorou para que carros parassem a oferecer-lhe carona. Mas ela via nos olhos dos motoristas que uma simples carona não era tudo o que ofereciam.
Recusou uma após outra.
No entanto, logo apareceram motoristas mais persistentes. Até que surgiu um que tentou forçá-la.
Expulsa de casa, sendo forçada a entrar em um carro contra a vontade. Sentiu que sua vida avançava para a ruína.
No entanto, como se os céus ouvissem seus gritos, o ronco de motores parando chamou a atenção dela e do seu algoz. Motos. Muitas motos.
"Solte a moça"
Seu algoz tentou argumentar, mas os anjos negros se acumulando ao redor dele eram muitos. Ele a largou e voltou correndo para seu carro. Saiu cantando os pneus.
"Você está bem?"
Ele olhou para cima viu um par de olhos claros. Dois sóis inundando sua visão. O rosto alvo, o sorriso largo. Uma mão estendida.
Ele cobriu o corpo dela, onde o vestido rasgado deixara à mostra, com uma jaqueta de couro. Pesada. Tão pesada quanto à mão de seu pai.
Lembrou-se de seu pai, do ódio em seus olhos.
De repente toda sua condição estampou-se em seus olhos. Tudo que ela havia suprimido dentro de si, todo o sofrimento. Tudo saltou sobre ela num mesmo instante.
Chorou.
Braços fortes a ampararam.
"Está tudo bem, agora."
Seus soluços foram a resposta.
Olhou ao redor, seus olhos vermelhos do pranto.
“Onde está sua família?”
“Não tenho família.”
“Então venha conosco.”
Montou na garupa da moto e partiu. Nada mais importava.
A estrada abraçou-a como uma mão abraça um filho perdido que retorna ao lar.
O vento em seu rosto levando seus pesares.
Avançou com o grupo e sumiu no horizonte.
Desaparecendo lentamente no ocaso.

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