Está uma noite fria lá fora. O vento sopra sobre a copa das
árvores como uma criança desajeitada soprando as velas de um bolo de
aniversário. As estrelas brilham como vaga-lumes perdidos na imensidão de uma
planície esquecida. Eu ouço o ranger de dentes no quarto ao lado, ouço gritos
abafados na profundidade da noite. Gritos de mil almas agonizando. Ouço as
vozes de amores passados implorando por apenas mais um beijo, lábios que se
aproximam eternamente sem nunca se tocar. Eu vejo sombras na parede, demônios
com dentes afiados e palavras doces. Sinto suas mãos delicadas em meu corpo,
sua pele tenra e quente deslizando pelos meus lábios, seus seios em minha boca
e sua respiração ofegante em meus ouvidos. Sua pele tem gosto de enxofre. Seus
olhos faiscam desejos proibidos. Seus dentes rasgam-me a carne e meu sangue
escorre por entre seus lábios. Eu pego seus cabelos, entro em seus corpos
demoníacos e pulsantes. Sinto o calor de seu interior como mil vulcões em
erupção. Seus gritos de prazer e desejo insano. Acaricio suas asas grandes e
negras enquanto o ritmo da orgia aumenta alucinadamente. Seus dentes em minha
carne. Arranco as penas de suas asas num frenesi descontrolado. Seu calor me
queimando. Escondo meu rosto no emaranhado de seus cabelos. O calor, a dor, o
sangue. Perco meus sentidos entre suas pernas e, finalmente, morro entre seus
rins.
Lá fora a noite está fria. Os primeiros raios de sol ameaçam
surgir por entre as montanhas como crianças perdidas em busca do lar. Caído no
chão do meu quarto eu imploro para que a noite não termine, para que elas não
me abandonem. A porta se abre e uma mulher vestindo branco entra com uma bandeja
nas mãos. Ela me obriga a engolir algo contra minha vontade.
Eu não estou louco, mas ela ninguém acreditaria.


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