terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Primeiras Palavras.



Está uma noite fria lá fora. O vento sopra sobre a copa das árvores como uma criança desajeitada soprando as velas de um bolo de aniversário. As estrelas brilham como vaga-lumes perdidos na imensidão de uma planície esquecida. Eu ouço o ranger de dentes no quarto ao lado, ouço gritos abafados na profundidade da noite. Gritos de mil almas agonizando. Ouço as vozes de amores passados implorando por apenas mais um beijo, lábios que se aproximam eternamente sem nunca se tocar. Eu vejo sombras na parede, demônios com dentes afiados e palavras doces. Sinto suas mãos delicadas em meu corpo, sua pele tenra e quente deslizando pelos meus lábios, seus seios em minha boca e sua respiração ofegante em meus ouvidos. Sua pele tem gosto de enxofre. Seus olhos faiscam desejos proibidos. Seus dentes rasgam-me a carne e meu sangue escorre por entre seus lábios. Eu pego seus cabelos, entro em seus corpos demoníacos e pulsantes. Sinto o calor de seu interior como mil vulcões em erupção. Seus gritos de prazer e desejo insano. Acaricio suas asas grandes e negras enquanto o ritmo da orgia aumenta alucinadamente. Seus dentes em minha carne. Arranco as penas de suas asas num frenesi descontrolado. Seu calor me queimando. Escondo meu rosto no emaranhado de seus cabelos. O calor, a dor, o sangue. Perco meus sentidos entre suas pernas e, finalmente, morro entre seus rins.
Lá fora a noite está fria. Os primeiros raios de sol ameaçam surgir por entre as montanhas como crianças perdidas em busca do lar. Caído no chão do meu quarto eu imploro para que a noite não termine, para que elas não me abandonem. A porta se abre e uma mulher vestindo branco entra com uma bandeja nas mãos. Ela me obriga a engolir algo contra minha vontade.

Eu não estou louco, mas ela ninguém acreditaria.

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