Fico assim sempre que penso nas pessoas, nos seres que
habitam nosso mundo e atendem por humanidade. Triste quando penso em todos nós.
O que nos tornamos?
Outro dia Márcia Tiburi dizia em uma palestra que somos
todos assassinos. E o somos não porque matamos, mas porque deixamos morrer.
Deixamos morrer os mendigos, as crianças de rua, o índio e todos aqueles que
estão à margem da nossa querida e amada sociedade.
Democracia.
Tenho um amigo que brinca dizendo que democracia vem do
grego Cracia = governo e Demo = demônio, ou seja, democracia é o governo do
demônio. A gente ri, mas agora penso se não está mais perto da verdade do que
imaginamos.
Além disso, a violência já não é mais tão travestida como
denunciou um dia Humberto Gesinger.
E nos matamos.
Abrimos mão de nossa liberdade (se é que isso existe mesmo)
em nome de uma segurança imaginária. Por que o Estado é incapaz de nos garantir
segurança. Mas nós queremos acreditar que sim. Queremos muito acreditar que
sim. Por isso entregamos o controle de nossas vidas a uma pessoa que nunca
olhou em nossos olhos. Não consigo compreender isso.
Choramos copiosamente por pessoas que nunca souberam que da
nossa existência e não nos comovemos com a criança suja de pés no chão que
nos pede um trocado.
É assim que nós somos. Cercamo-nos de desculpas para odiar
os pedintes e os mendigos. Dizemos em voz alta que eles poderiam estar
trabalhando, mas no fundo agradecemos por não terem tomado nossa vaga no
mercado de trabalho.
hipocrisia.
Esperamos que eles morram. Alguns, com mais consciência, ou
medo do divino, distribuem algumas migalhas do que lhes sobra. E esperamos que
todos sejam felizes na nossa tão sonhada democracia. Mentira! o que nos importa
é somente a nossa própria felicidade
Nos escondemos em nossas casas, esperando que os marginais
fiquem lá fora. Odiamos quem nos rouba, mas esperamos todos os dias pela chance
de roubar alguém. E roubamos. Roubamos a esperança com um comentário ou
conselho. Roubamos o sorriso com uma má resposta ou indiferença. Roubamos a
paciência com nossas reclamações ou palavras duras. Roubamos o amor com
traições e descaso.
Sempre roubamos algo de alguém para nossa própria
satisfação.
Somos vermes incuráveis.
O mais triste é que noventa e nove por centos de nós nem
percebe isso. Está inculcado de tal forma em nossas pobres cabeças que sequer
nos damos conta. Puxamos o gatilho e nem sabemos que o fizemos.
Eu me pergunto se isso é inocência ou ignorância.
Desconfio que peguei pesado demais...
Desculpem-me por minhas palavras.
Não se importem com o que eu disse.
É só um desabafo de alguém que vê o que não queria...
E o nó na minha garganta não se desfaz.


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